27 de outubro
A caverna era escura e úmida, como se as paredes suassem de tanto calor. Uma das poucas coisas visíveis era a pequena luz verde piscando de dentro de um buraco, que no final das contas era o motivo de estarmos ali. Eu tinha me arrastado vários metros por um chão lamacento e não muito perfumado e minha mão estava a apenas alguns centímetros da luz. Mas parecia impossível alcançá-la.
- Preciso de um gancho, um pedaço de pau, alguma coisa.
Alguém da equipe de escavadores se apressou em me passar um pé de cabra, com o qual eu puxei o objeto para fora do buraco. Parecia um ovo grande e achatado. E a luz que eu vi piscando era apenas uma entre várias outras, no que parecia ser uma espécie de teclado de computador. Com um pincel, comecei a tirar a terra acumulada na superfície. Foi possível ver então que cada “tecla” possuía um símbolo, um desenho, que lembrava um ideograma chinês, só que bem mais complexo. Na parte de cima, um pequeno painel verde dava a impressão de ser algum tipo de monitor, algo que pemitisse visualizar o resultado de pressionar as teclas. Um notebook alienígena? Acho que não.
Sem querer, puz força demais no pincel e acabei pressionando uma determinada tecla. O aparelho emitiu um som e todas as luzes piscaram em uníssono. Então, o barulho cessou e deu lugar a um ruído bem sutil, que, se não fosse o silêncio da caverna, seria impossível ouvir. Todas as luzes se apagaram, menos uma, numa tecla maior no canto superior direito. Bom, querendo ou não, acho eu ativei o aparelho. Aperto a tecla ou não aperto? A tentação era grande. O que pode acontecer?
Desde que eu tinha 12 anos e encontrei uma cruz de prata embrulhada num saco de pão enterrado embaixo de uma casa, eu não me sentia assim. Virei para trás. A equipe me olhava com curiosidade. Jeff, meu assistente, fez um sinal com a mão, como quem diz: Vai, aperta logo esse negócio.
Eu nem pensei muito. Toquei a tecla e imediatamente uma luz verde começou a emanar do aparelho. Logo a seguir, uma sensação estranha tomou conta do meu corpo. Primeiro, de forma bastante desagradável. Parecia que eu estava girando no próprio eixo numa velocidade absurda. Depois foi ficando mais lento e o desconforto foi passando. Quando tudo parou, o aparelho não estava mais nas minhas mãos. Mas isso não era nem de longe o mais esquisito.
O fato é que não estava mais na caverna. Embora tudo parecesse familiar, eu não reconheci imediatamente. Aos poucos, o som do lugar começou a ficar mais alto e um barulho ensurdecedor atacou meu ouvido.
Finalmente eu percebi que estava no ginásio de esportes do colégio em que estudei quando era garoto. Era a final do campeonato de futebol entre turmas, que estava sendo decidido nos penaltis. O barulho vinha da torcida, que sempre fazia o possível para atrapalhar o batedor. E era a minha vez de cobrar. Mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, eu corri para a bola e chutei como se minha vida dependesse disso. O goleiro pulou no canto certo mas a força do chute o empurrou para dentro do gol com bola e tudo. O ginásio explodiu em festa. Todo mundo me abraçou. O campeonato era nosso! Uma lembrança deliciosa da minha infância, que por algum motivo eu estava revivendo.
Bacana. Mas o que diabos estava acontecendo? Era um sonho ou eu realmente voltei no tempo?
Ao entrar no vestiário, olhei no espelho e tomei um susto: me vi com 10 ou 11 anos, franzino como fui por toda a adolescência. Sentei num banco e tentei me concentrar. Como eu posso ter voltado no tempo e ao mesmo tempo ter retido minha memória de adulto? Como meu corpo regrediu a essa idade? Como eu cheguei aqui? E o mais importante: como eu saio daqui?
Tomei uma ducha, coloquei o uniforme do colégio, me despedi dos colegas e saí.
Do lado de fora do ginásio, mais uma surpresa, essa bem desagradável: Fernando, o “Ratão”, andando em cima da mureta com a minha bicicleta. Essa foi uma imagem que me atormentou por boa parte da infância e da qual eu já havia me esquecido. Mas estava ali, em carne e osso, na minha frente outra vez.
Algo porém estava diferente. Ratão era um garoto grande, que vivia abusando dos menores, provocando e maltratando quem cruzasse me seu caminho. Mas agora eu olhava pra ele e não tinha medo. Era só uma criança. Se vacilar eu pego o babaca pela orelha e o levo até a secretaria.
Meio sem pensar, me aproximei dele e disse:
- Me dá minha bicicleta, Ratão.
- Daqui a pouco. Eu gosto de andar nela.
Aquela voz irritante outra vez! Pensei que nunca mais ia ter esse desprazer.
- Me dá minha bicicleta agora!
- Senão você faz o quê?
A mureta tinha uns três metros de altura e lá embaixo era grama. Uma boa queda.
- Isso!
Dei um chute com a sola do pé na parte de trás da bicicleta. Ele se desequilibrou e caiu. Eu desci pela escada e fui ver o estrago. Hum, acho que aquilo ali no braço dele é um fratura exposta. Pisei em cima. Ele berrou. É, é uma fratura exposta sim. Levantei a bicicleta.
- Da próxima vez eu quebro o seu pescoço!
Terminei a frase com um pontapé nas costas do imbecil.
- Entendeu?
Ele gemeu alguma coisa. Outro chute, ainda mais forte que o primeiro.
- Entendeu?
- Entendi, entendi.
A bicicleta estava toda esquisita. O quadro provavelmente tinha entortado na queda. Um pneu estava furado. Andando nela, eu provavemente parecia um personagem saído de um filme do Charlie Chaplin ou coisa parecida. Que se dane. Eu estava me sentindo nas nuvens.
Então, tudo começou a girar novamente e, de repente, eu estava de volta à caverna. Olhei para trás e a equipe me olhava da mesma maneira que antes.
- Quanto tempo eu fiquei fora, Jeff?
- Senhor?
- O que aconteceu?
- Nada, chefe. O senhor apertou aquela tecla verde, uma luz estranha começou a sair do aparelho e daí não aconteceu mais nada.
Opa, peraí. Isso não tá certo.
- Jeff, tem algo estranho aqui. Quando eu encostei naquela tecla, alguma coisa aconteceu sim.
Só que, pelo jeito, aconteceu só pra mim.
- Eu vou tentar de novo, OK?
- O senhor que manda, chefe.
Minha mão foi até a tecla iluminada no canto direito do aparelho. Dessa vez, com um certo receio. Apertei a tecla e tudo se repetiu. O barulho, as luzes, o rodopio.
Após alguns instantes, tudo se acalmou. Eu olhei em volta. Parecia que eu tinha voltado para o mesmo ponto no tempo.
Quase o mesmo ponto, porque a bicicleta estava esquisita, mas estava andando. Certamente alguém a havia consertado. Ei, eu conheço essa rua. Sim, ela vai dar no campus da Universidade. Será que é pra lá que estou indo?
Alguém grita meu nome.
- Luqui!
Eu conheço essa voz. Olho pra trás. É Cláudio, ou Crau, como a gente o chamava. Ele acena e se aproxima.
- Você não ouviu eu gritando, pô?!!
- Desculpa, Crau. Eu tô meio avoado hoje.
- Vamo logo que a gente tá atrasado.
- Pra quê, mesmo?
- Cara, você tá perdidão hein? Pra aula de anti, antra, antro…
- Antropologia!
- É isso aí.
Claro. Eu me lembro. O pessoal da Faculdade estava oferecendo um workshop para a comunidade e nossa escola tinha sido convidada. Primeiro ia ter uma parte teórica, com os princípios da antropologia. Depois uma palestra com um dos irmãos Villas-Boas e finalmente a gente ia até um pequeno sítio arqueológico que ficava perto da cidade, onde supostamente alguém havia encontrado restos de um civilização antiga, já extinta.
Eu entrei na sala, cumprimentei todo mundo e fui sentar no fundo, com o resto da galera. De repente, mais uma surpresa: pela porta, entra um anjo de pele clara, cabelos loiros, olhos azuis e um nariz que parecia ter sido feito à mão. Norma. Como eu pude esquecer? Minha primeira grande paixão, e provavelmente a coisa mais ridiculamente platônica que um garoto pode viver. Ela nunca soube de nada. As músicas, os poemas, as horas que eu passei sonhando acordado, imaginando como seria a textura do seu cabelo.
Ela entrou na sala e olhou em volta. Quando me viu, abriu um sorriso e me cumprimentou. A galera percebeu e todo mundo caiu no meu pelo. Peraí. Tem alguma coisa estranha aqui. Norma nunca me deu essa moral.
Após a palestra, a gente foi para o ônibus que iria nos levar até o tal sítio arqueológico. Quando eu entrei, olhei em volta e vi Norma sentada no fundo, junto com algumas amigas. É estranho ser criança. Eu costumava suar na mão quando estava perto dela. Agora, ela é só uma menina.
- Eu gosto quando você não prende o cabelo.
O comentário a pegou de surpresa e ela corou levemente.
- Obrigada.
- Não que você fique mal de trança, ou de outro jeito. Mas tem coisas que foram feitas pra viver em liberdade.
Todas as meninas da turma estavam sorrindo pra mim, piscando os olhinhos e suspirando. Incluindo Norma. Porque não foi fácil assim da primeira vez?
O ônibus chegou ao seu destino e todos saímos para acompanhar os professores até o lugar da descoberta. Eu e Norma fomos andando mais devagar que os outros e acabamos ficando a sós.
- Me contaram que você deu um chega-pra-lá no Ratão.
- Pois é. Eu não queria, mas aquele imbecil me tira do sério toda vez que…
- Eu achei demais.
Então ela se inclinou e me deu um beijinho no rosto. Foi como se mil pétalas de rosas me roçassem a pele.
- Se isso for um sonho, eu vou odiar acordar.
Ela riu, pegou minha mão e me levou até embaixo de uma árvore. Eu deitei a cabeça no seu colo e a gente ficou ali um tempão. Sua mão nos meu cabelos era o mais próximo que eu imaginava chegar do paraíso. O mundo podia acabar naquele minuto que eu não ia nem ficar chateado.
- Norma, você pensa no futuro?
- Como assim?
- O que você vai ser, onde vai morar, essas coisas.
- Eu vou ser feliz.
- Não tenho dúvida. Mas que profissão você acha que vai ter?
- Isso não tem importância.
Uau. Uma menina de 10 anos me dando uma lição de vida. Tentando me ajeitar melhor, eu me virei e a cruz balançou no meu peito.
- O que é isso?
- Ah, é uma coisa que eu achei uma vez. Estava escondida dentro de um pacote de pão, você acredita?
- E você sempre usa?
- Desde o dia em que eu a achei.
Peraí. Tem coisa errada aqui. Eu tinha 12 anos quando achei essa cruz. E eu tenho 10 agora, no máximo 11. Em que ano a gente está? Eu preciso ter certeza. Mas como é que eu vou perguntar o ano pra ela sem parecer doido?
Já sei.
- Norma, na 5ª série…
Antes que eu pudesse terminar a pergunta, começaram os rodopios, as luzes e, mais uma vez, eu estava de volta à caverna. Eu eu Jeff estávamos sentados nessas cadeiras de acampamento e o artefato estava de novo nas minhas mãos.
- Como eu cheguei aqui?
- Senhor?
- Eu estava lá no fundo da caverna e agora estou aqui nessa cadeira.
- No fundo da caverna? Fazendo o quê?
- Pegando esse troço, oras.
- Chefe, quem pegou o artefato foi o Anderson, meu menino, junto com um dos escavadores.
- Jeff, sou sempre eu que pego as coisas, você sabe disso.
- Professor, desde o acidente naquela caverna na Colômbia, sua esposa pediu pro senhor não se arriscar mais tanto, o senhor não se lembra?
Era só o que faltava! Agora eu sou casado com uma megera controladora que me impede de fazer o meu trabalho. Que merda é essa?
- Desculpe, Jeff. Acho que o calor da caverna está e fazendo mal. Você pode recapitular tudo pra mim, por favor?
- Sim, senhor. A gente está há duas semanas nessa caverna. Por causa da escavação, uma parede desmoronou e pelo buraco a gente viu uma luzinha que não parecia ser natural. Os meninos tiraram esse negócio do buraco e trouxeram aqui pra cima. O senhor limpou a sujeira e daí o negócio fez um barulhão e essa luz aí no canto acendeu. O senhor já apertou duas vezes essa tecla, um monte de luzes piscaram e mais nada aconteceu.
Aconteceu sim, meu amigo. Muita coisa aconteceu.
- Eu vou apertar mais uma vez, só pra tirar a dúvida. Mas, antes, faz o seguinte: abra essa mochila e procure uma filmadora. Achou? Ótimo. Ligue e comece a gravar.
- Rodando, senhor.
- Hoje é 23 de janeiro de 2003. Estou com minha equipe numa caverna no meio do deserto mexicano. Acabamos de desenterrar o que parece ser um artefato alienígena. Não sabemos ainda o que ele faz nem como é a sua operação. Mas o artefato parece estar ligado e funcionando. Temos licensa para fazer os primeiros testes ainda em campo e é justamente isso que eu vou fazer agora, pressionando uma tecla luminosa que se acendeu no que parece ser o painel principal do aparelho. Pronto? Lá vai.
Talvez eu já estivesse me acostumando, mas tive a impressão que dessa vez tudo aconteceu mais rápido. De qualquer maneira, eu estava de volta. Era a rua da minha casa. Eu continuei andando tranqüilamente quando tive a impressão que o mundo caiu sobre mim.
Não era o mundo. Eram os irmãos Fernandez, os “capatazes” do Ratão. Eles pularam e cima de mim e me derrubaram. Minha camisa rasgou e a cruz ficou visível. Ratão a arrancou do meu peito.
- Bonito. Acho que vou ficar com ela.
- Não vai não.
Foi inútil. Por mais que minha cabeça fosse de adulto e eu visse esses sujeitos apenas como crianças, minha força física estava limitada ao corpo de um garoto de 10 anos. Vou ter que apelar.
- Eles estão me assaltando, seu guarda.
- O quê?
Um segundo de vacilo às vezes é o suficiente. Enquanto eles olharam pra trás pra ver se tinha mesmo um guarda ali, eu peguei a cruz e saí correndo. Passei em frente a uma casa que estava com o portão aberto. Entrei e fui até o quintal. Eles entraram atrás. O muro da casa ao lado era baixo. Eu pulei e comecei a correr por entre os quintais das casas. Eu já tinha feito isso muitas vezes quando a gente brincava de esconde-esconde e sabia o que estava fazendo.
De repente, um muro mais alto, que, até onde eu me lembrava, não deveria estar ali. Eu consegui pular, mas perdi o equilíbrio, caí de mal jeito e dei com a cabeça na parede da casa.
Devo ter ficado desacordado por alguns minutos. Quando recuperei a consciência, notei que meu choque tinha destruído uma parte da parede. A casa era dessas bem simples, suspensa por palafitas, com a parte de baixo fechada por tijolos. Foi justamente contra esses tijolos que eu me choquei. Tirei mais alguns do lugar e fiz uma passagem. Aqui deve ser um bom lugar pra me esconder. Era muito escuro, mas dava pra ver que havia lixo no chão, junto com sacolas de supermercado e sacos de papel. Eu peguei um dos sacos, coloquei a cruz dentro e fui procurar um lugar pra escondê-la. Então eu cheguei no exato lugar onde, muitos aos atrás eu encontrei a cruz. Caramba, fui eu mesmo que a escondi, anos antes de encontrá-la! De alguma forma, a cruz sempre esteve comigo.
Tive o cuidado de colocar o pacote no exato local onde o encontrei. Esperei mais alguns minutos e saí. Ratão e seu “bando” já deveriam ter ido embora.
Que nada. Assim que eu pus o pé na rua, eles me atacaram. Ratão estava irado, a fim de vingança. Como seu braço esquerdo ainda estava engessado, ele resolveu me atacar com um cano. Os dois garotos me seguraram e Ratão bateu o quanto quis. Fiquei olhando pra ele, como que jurando que ia ter volta. De repente, eu desmaiei.
Acordei na caverna, com o artefato no colo. Jeff estava na minha frente me filmando. Tudo parecia igual. Com a diferença de que, pela primeira vez em muitos anos, a cruz de prata não estava em meu pescoço. E eu não conseguia mover as pernas. Eu estava sentado em uma cadeira de rodas.
- Você filmou tudo?
- Sim, senhor.
- Volte a fita, por favor. E me traga a filmadora aqui.
Impressionante. O vídeo mostrava tudo como realmente havia acontecido, com a diferença de que eu estava o tempo todo na cadeira de rodas. E realmente, nada acontecia depois que eu acionava a máquina. Era uma questão de segundos entre apertar a tecla e perguntar a Jeff se ele havia filmado tudo. Além das luzes piscando, a fita não mostrava poeira, nem sons, nem rodopios, nada do que eu presenciava cada vez que acionava o mecanismo. Deveria estar acontecendo apenas na minha cabeça. Mas como explicar a cadeira de rodas? Eu sou tetraplégico desde criança? Acho que não.
Espere um pouco. A primeira “viagem” ou seja lá o que for que essa coisa faz, foi para uma época específica da minha vida. E eu estava pensando justamente nessa época, porque foi quando eu encontrei a cruz e resolvi que era isso que eu ia fazer da vida. Talvez o aparelho seja capaz de ler a mente do usuário. Talvez, se eu me concentrar, eu possa fazer a máquina me levar para um momento anterior ao dia da surra e evitá-la.
Mas como? Na vida “original”, eu nunca enfrentei o Ratão, nem nunca tomei essa surra. Pra que ponto específico eu volto?
- Jeff, há quanto tempo você me conhece?
- Mais de 20 anos, professor.
- E há quanto tempo eu estou nessa cadeira de rodas?
- Desde o acidente na Colômbia, o senhor não se lembra?
- Foi tão feio assim?
- Eu me lembro que o médico falou que foi muito azar quebrar as mesmas vértebras que o senhor quebrou quando era garoto. Se não fosse isso, o senhor teria escapado inteiro.
A surra! Eu preciso voltar lá e evitar a surra.
- Jeff, meu amigo. Se eu te disser que as coisas nem sempre foram assim e que essa máquina dos infernos está me transportando para o passado e o que eu estou vivendo lá está alterando o presente, você vai achar que eu pirei, não é?
- He, he. Não ia ser a primeira vez que o senhor me pega numa dessas, professor. Mas o que o senhor está querendo dizer, afinal?
- Não sei nem se faz sentido. Olha, seja o que for, eu preciso voltar lá e desfazer certas coisas, OK?
- Sim, senhor.
Espera um pouco. Tem uma montoeira de teclas aqui e eu só estou usando uma. Não é possível que um aparelho dessa complexidade tenha um funcionamento tão simplório. O problema é saber o que faz o quê, sem ter que sair apertando tudo.
Partindo do princípio que essa tecla grande é responsável pela operação principal do aparelho, tem que ter uma outra que altere sua função, tipo uma tecla option ou algo assim.
Essa aqui do lado parece uma boa candidata. Apertei. Nada. Tentei uma outra. Nada. E se eu segurar uma e daí apertar a outra? Pode ser. Segurei uma candidata a tecla option e daí apertei a grandona. Então aconteceu uma coisa realmente espetacular: da parte de trás do aparelho começou a sair uma luz vermelha que passou a projetar na parede uma série de imagens em movimento. Era como se fosse uma linha do tempo, só que dedicada exclusivamente à minha vida. Pude ver minha mãe em trabalho de parto, meus primeiros passos, meu primeiro carrinho e diversos outros momentos importantes.
- Você tá vendo isso, Jeff?
O coitado estava tão surpreso que quase não conseguiu responder.
- S-sim, senhor, professor.
Bom, pelo menos eu não estava ficando louco sozinho. A “história” evoluía muito rápido e de repente já estava perto do dia em que o Ratão e seus amigos me pegaram. Como eu faço pra parar essa coisa? É aqui que eu preciso entrar. Vou apertar a tecla option outra vez.
Deu certo. A projeção foi interrompida, as luzes se acenderam e começaram o barulho, o rodopio e tudo o mais. Eu voltei justo no momento em que eles pularam em cima de mim e me seguraram.
- Você é muito macho com um cano na mão e mais dois caras ajudando.
- E você é um coitado que vai apanhar pra valer.
- Ratão, você é maior do que eu, mais velho, mais forte. Mesmo assim, tem tanto medo de mim que precisa de reforço?
- Só até eu te quebrar no meio.
É, psicologia infantil definitivamente não estava funcionando. Quem sabe eu deva rezar pra um milagre.
- Eles estão me roubando, seu guarda.
Ratão riu.
- Outra vez, não.
Ele levantou o cano pra me bater. Antes que fizesse outro movimento, a mão do guarda Figueiroa segurou seu braço. Ele olhou pra trás e tomou um susto. Figueiroa pegou o cano da mão dele e olhou feio para os três.
- Circulando…
O três saíram correndo. Sei lá, vai ver que milagres acontecem. Eu me levantei, tirei o pó da roupa e agradeci.
- Salvou a pátria outra vez, seu guarda.
- Alguém tem que ficar de olho nessa cambada. Eles tão sempre aprontando.
Nem fale. Corri pra casa. Se eu tinha prestado atenção, essas “viagens” ao passado duravam em torno de 15 minutos. Então, a qualquer momento eu deveria voltar.
Minha mãe estava fazendo pão doce. Putz, aquele perfume delicioso saindo do forno, minha mãe ainda inteira, jovem, forte, antes do câncer tirá-la da gente. Eu a abracei e não falei nada. Não sabia se ia ter uma chance de vê-la outra vez.
- Mãe, se cuida tá.
Ela fez cara de quem não estava entendendo. Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, começaram os sons, o rodopio e em instantes eu estava de volta a caverna. Minha primeira reação foi checar a cadeira. Não, não tinha rodas. Puz a mão no peito. A cruz estava lá.
- Jeff, meu amigo, eu preciso de uma cerveja.
- 10 minutos, pessoal.
Jeff abriu um tipo de caixa refrigerada e tirou duas latinhas suadas lá de dentro.
- Quanto o senhor acha que o museu vai pagar por isso, professor?
- Não sei se vou vender, Jeff.
- Como?
- Talvez isso deva ir pra análise de um equipe de cientistas, ou pra NASA, ou algo assim. Eu sei que parece estranho, mas todas as vezes que acionei o aparelho, eu fui transportado ao passado. Pra você nada aconteceu, mas pode ter certeza de que não foi a minha imaginação. Você viu o filme na parede.
- Aquilo foi muito louco.
- Talvez a gente devesse destruir esse troço, ou escondê-lo melhor pra que ninguém o ache, ou pelo menos que leve mais tempo, até a gente estar em condições de entender essa tecnologia.
- O senhor quer suspender a escavação?
- Acho que sim. Pelo menos por enquanto.
- Eu vou avisar a equipe.
No fundo acho que tudo o que eu quero é chegar no hotel, tomar uma ducha, abrir um garrafa de tequila e beber até desmaiar.
Saí da caverna, joguei o artefato no banco do jipe, liguei o motor e fui embora. O hotel era um muquifo, mas a verba era apertada e eu não achava legal ficar num lugar diferente da equipe. Pra minha surpresa, um sujeito gordo, bigodudo e suarento me barrou.
- O que usted desea?
E agora? Nem portunhol eu falo.
- Eu estou hospedado aqui. ¡Soy un hospede!
- No me recuerdo. Su nombre, please?
- Scalpi. Professor Scalpi.
- No. No hay Scalpi.
Ah, peraí. Peguei o celular.
- Jeff, tem um gordo suarento aqui no hotel dizendo que eu não estou hospedado. Se isso for uma piada, não tem graça. Eu preciso de um banho.
- Não pode chefe. Deixa eu falar com o cara.
30 segundos de uma conversa que eu não entedi nada e o bigodudo me devolveu o celular.
- E aí?
- Chefe, o senhor está no hotel errado. Eu e a equipe é que estamos aí. O senhor está no Ceasar’s.
Ah, pare. Agora eu virei um babaca que não se mistura?
- Jeff, por favor, se for uma pegadinha, pare agora enquanto eu não perdi totalmente a paciência.
- Professor, a sua esposa também está aqui. E o senhor achou que o hotel de sempre não era bom o bastante.
Pronto. Era só que faltava. A megera controladora veio junto!
- Como o senhor falou? Mufico, moquiço…
- Muquifo.
- Isso mesmo. A rapaziada nunca tinha ouvido essa palavra. A gente riu um monte.
Peguei o carro e fui pro centro da cidade. Catzo. Eu não me lembro nem de ser casado. Só faltava essa.
Cheguei no hotel. Fui pra recepção e perguntei qual era o meu quarto. O sujeito me reconheceu, sorriu e me disse o número. Fui direto pro elevador. Parei na frente do quarto, respirei fundo e entrei. Parecia vazio. Joguei a mochila com o artefato no sofá, fui até o banheiro, liguei a água e deixei a banheira enchendo. Fui até o frigobar, peguei umas três garrafinhas e um copo com gelo.
- Não está meio cedo pra tequila, querido?
Ai, caramba, não pode ser. Ela estava na varanda, sentada numa espreguiçadeira e com o mesmo jeitinho de menina que eu adorava.
- Norma!
Ela se levantou e me abraçou. Eu a apertei contra o meu corpo com tanta força que fiquei com medo de quebrar alguma coisa.
- Ai, como eu adoro quando você me abraça assim.
Como é que pode essa mulher ser ainda mais linda hoje do que quando era garota?
- Eu sou completamente louco por você. Sempre fui, desde garoto.
Ela sorriu.
- Eu sei.
- Eu era muito bandeiroso?
- Pra minha sorte, sim.
- Gata, eu detesto interromper um momento tão importante, mas eu preciso de um banho. Tudo bem? Não sai daí, tá?
- Tá bom.
Corri pro chuveiro. Eu mal podia acreditar. Norma é minha mulher. Norma é minha mulher! Mesmo com o barulho da água, deu pra ouvir sua vozinha doce, lá da sala:
- Amor?
- Oi.
- Você deixou seu laptop ligado. Vou desligar, tá?
O Quê? Laptop? Que lapt… Não!
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